IMAGENS QUE ILUSTRAM A VIDA


Sua Infância

 

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Uma pesada carroça avança lentamente através de uma bruma espessa que escurece o horizonte e deixa a visibilidade muito difícil. Dentro da carroça entulhada: uma cama de madeira, duas velhas mesas, um buffet, uma marmita, uma panela, uma biblioteca e alguns pacotes de livros. Atrás, em silêncio profundo, anda uma mulher de idade e um jovem padre o qual o grande sapato ressoa pesadamente sobre os calhaus da estrada.

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Eis um cruzamento de caminhos. Qual direção tomar? Os viajantes estão perdidos. Felizmente, pequenos pastores estão lá chamando seu rebanho. O padre se aproxima de um deles, um menino mais velho, iluminado de um bonito sorriso.

- Meu pequeno, poderia me indicar o caminho até Ars?

- Por ali, senhor cura; depois, é seguir em frente.

E com o dedo o menino mostra, na longe bruma, o ponto aproximado onde se escondia a cidade.

 

 

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A criança continua a olhar o padre com curiosidade e franqueza.

- Como te chamas, meu pequeno amigo?

- Antônio Givre.

- Bem, Antônio, você me mostrou o caminho de Ars, eu te mostrarei o caminho do céu.

Antônio explica então que o limite da cidade passa exatamente no cruzamento onde eles se encontram. Logo o padre se ajoelha na direção do vilarejo e ora com todo o seu coração; e eles se colocam à caminho...

 

 

 

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Esse padre se chama João Maria Vianney.

Nascido em Dardilly, perto de Lyon em 8 de maio de 1786, três anos antes do início da revolução francesa, futuro herdeiro da paróquia de Ars e Margarida, sua amiga de infância. Seu pai, Mateus Vianney, é um bom camponês, muito rude; sua mãe, Maria Béluse, uma mulher sólida como uma rocha e ao mesmo tempo límpida como a água de uma fonte.

 

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Muito cedo sua mãe lhe ensina a amar à Deus.

Ela lhe mostra as cruzes, as estátuas de Nossa Senhora e os santos que ornamentam os quartos de sua casa.

Um dia que ela tinha esquecido o sinal da cruz antes da refeição, João Maria recusou firmemente tocar na sopa até o momento o qual a sua mãe, tendo adivinhado a razão do seu "não" enérgico, percebe o esquecimento e o ajuda a fazer o gesto.

 

 

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Desde que ele deu seus primeiros passos, o pequeno bom homem pegou o hábito de imitar os "grandes".

À noite, ele se ajoelha perto de seus pais quando todos os hóspedes da fazenda se reuniam para a prece. Ao longo do dia, ele anda junto a sua mãe que lhe ensina a balbuciar o "Pai Nosso" e a "Ave Maria" e lhe conta as mais belas histórias do Evangelho. João Maria ama sobretudo o nascimento de Jesus no estábulo, com a visita dos pastores.

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Mais tarde, Vianney se lembra certamente dos bons momentos passados em Dardilly quando ele dirá às mães como é grande a missão que Deus lhes confiou. Pois esse sentimento é passado para Vianney, como de pai para filho. A mesa de família estava sempre aberta para toda a gente que passava, peregrinos e mendigos; não se contentavam de lhes dar um pedaço de pão na soleira da casa.

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Nas vigílias, perto da chaminé, ele certamente ouviu seu pai falar de um hóspede desconhecido acolhido há vinte anos atrás na fazenda. Ele chegou à noite sujo, esfarrapado, com uma bolsa sob os ombros, um rosário em volta do pescoço e uma cruz sobre o peito. Ele vinha de Amettes, Pas-de-Calais, em peregrinagem para Roma, e se chamava Benedito José. No dia seguinte, ele agradeceu de todo o seu coração aos hospedeiros e partiu pedindo à Deus que abençoasse aquela casa. Um dia, esse pedinte seria canonizado e conhecido pelo nome de santo Benedito José Labre.

 

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Crescendo, João Maria Vianney toma uma parte mais ativa da vida na fazenda. No verão, quando os homens partem cedo para os campos, a criança e sua mãe os reencontram um pouco mais tarde, montados em um asno. Que alegria fazer piruetas sob as ervas e criar jogos os quais João Maria participa.

 

 

 

 

 

 

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Às vezes uma “tempestade” ameaça entre o irmão e a irmã. João Maria tinha um bonito terço que ele gostava muito. Margarida, mais velha dezoito meses, se colocava a olhá-lo querendo-o para si.

- Dá para mim – diz ela batendo o pé com raiva.

- Não, ele é meu – responde João Maria

Mas Margarida não desiste. O pequeno menino corre até sua mãe:

- Mamãe, Margarida quer pegar o meu terço

- Dê à ela, vai, lhe dê por amor à Deus

João Maria suspira, mas... mas dá o seu "tesouro".

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Para lhe consolar sua mãe lhe deu de presente uma estátua de Maria de Nazaré que ele constantemente contemplava sobre a chaminé da cozinha.

Que alegria!

- Eu não sabia me separar dela, e eu não dormiria tranquilo se não a tivesse ao meu lado na minha pequena cama. – disse ele tempos depois

 

 

 

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Senhora Vianney vai frequentemente à uma missa matinal. Desde que o relógio soa, João Maria vai procurar sua mamãe:

- Diga, mamãe, me leve.

E vemos frequentemente na igreja um perto do outro, Vianney com quatro anos e sua mãe. Ela lhe explica os gestos do padre, o sentido de suas preces. João Maria se dedica a bem seguir, mas às vezes ele se vira para olhar sua mãe cujo o rosto reflete a alegria de falar com Deus. Ele dirá mais tarde:

- Se eu amei tão cedo a missa é à minha mãe, tão próxima de Deus, que eu devo.

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Mas a Revolução eclodiu e os padres que quiseram permanecer fiéis à Igreja foram obrigados a se esconder, senão eram presos e guilhotinados em vinte e quatro horas. Era proibido lhes dar abrigo. Apesar de todos os perigos, muitos padres ficaram na região de Dardilly. Escondidos um dia aqui, outro dia ali. Eles celebravam a missa de noite nas granjas ou nos locais reservados das fazendas. Os cristãos certamente avisavam o lugar e a hora da próxima missa.

 

 

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Vianney se coloca à caminho; eles pegam o caminho da travessa; normalmente a caminhada era longa. Chegando ao local da reunião, o padre vestido como as pessoas da região os acolhe com grande alegria. Ele começa a ouvir aqueles que querem se confessar, enquanto os outros oram com fervor. Depois, ele coloca sobre a mesa os seus ornamentos e inicia a missa enquanto nos arredores os homens ficam vigiando.

 

 

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E não é que durante essas missas noturnas, celebradas escondido, pela primeira vez João Maria tem a ideia de ser padre?

Entretanto o terror continua. As cruzes dos caminhos são abatidas e quebradas; as pessoas devem esconder seus crucifixos, suas estátuas; mas João Maria guarda sua estátua de Nossa Senhora, ele a leva ao campo em um dos seus bolsos. Ele tem sete anos agora e pode fazer serviços na fazenda, especialmente tomar conta do rebanho composto por um asno, vacas e ovelhas.

 

 

 

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Duas vezes por dia, com sua irmã Margarida, apelidada de Gothon, ele conduz o rebanho ao vale de Chantemerle, irrigado por rios ruidosos e o onde as encostas são alegradas por uma trilha de pássaros.

João Maria ama muito esse vale. Lá chegando, sua irmã e ele se ajoelham e oferecem à Deus seu trabalho de pastoreio. Depois eles pegam suas agulhas e lã de tricotar para confeccionar meias e sapatos, velando cuidadosamente seu rebanho.

 

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João Maria conta a Gothon passagens do Evangelho e cenas da vida de Jesus; mas em seguida ele lhe diz:

- Pode fazer as minhas meias, eu preciso ir ao rio para orar.

Ele coloca sua estátua de Maria de Nazaré no buraco de um velho salgueiro meio podre, a decora de plantas e flores, depois de joelhos ele ora. Às vezes ele também constrói pequenas capelas, onde modela a terra gelada para fazer rústicas estátuas, pois é um hábil artesão!

 

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Ou ainda sua irmã e ele cantam fragmentos de canções que eles conheciam.

Os pequenos pastores das redondezas vinham se reunir à eles.

João Maria lhes ensina as preces que sua mãe lhe ensinou, e conta o que ele ouviu durante as missas celebradas nas fazendas.

 

 

 

 

 

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Ele passava então todo o tempo a orar, você diria? Não! João Maria se encontra com o mesmo grupo de crianças para jogar, sobretudo paleta, o qual ele é habilidoso. Mais tarde, um dos antigos camaradas de jogo conta:

 

- Quando perdemos, ficamos muito tristes. Ele, vendo a nossa dor, dizia: "não se aflija pelo o jogo!" Depois, para nos consolar, ele nos dava o que ele tinha ganho.

 

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Em 1795, a queda de Robespierre leva o fim do terror. Um cidadão chamado Dumas abre uma escola em Dardilly. João Maria, que tem agora perto de nove anos, se senta pela primeira vez na sua vida sobre os bancos de uma classe; mas sua irmã mais velha, Catarina, já lhe havia ensinado o alfabeto. Na escola, lhe ensinam a leitura; ele se dedica de todo o seu coração e seus progressos são tão rápidos que ao final de algumas semanas ele pôde contar em voz alta a vida dos santos aos seus familiares.

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As igrejas ainda ficam fechadas. Mas quatro padres vão se instalar em Ecully, perto de Dardilly. Um deles, o Senhor Balley, é carpinteiro; o outro, Senhor Groboz, cozinheiro. Dessa forma, eles despertam suspeitas. Um dia, Senhor Groboz se aproximou dos Vianney e perguntou à João Maria:

- Qual idade você tem?

- Onze anos.

- Já se confessou?

- Nunca.

- Então faremos logo. – respondeu o padre.

E lá mesmo, aos pés do relógio, ele faz sua primeira confissão que maravilha o padre.

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Senhor Groboz propôs então aos pais deixarem o pequeno ir à Ecully completar sua instrução religiosa para fazer sua primeira comunhão. Em maio de 1798, João Maria deixa sua família e vai morar na fazenda do "Ponto do Dia", na casa de uma tia. Duas religiosas que estavam com o convento destruído, viviam em Ecully. São elas que prepararam uma quinzena de crianças para a primeira comunhão. João Maria segue com grande fervor o retiro que antecede o grande dia.

 

 

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Infelizmente a perseguição foi retomada. O papa Pio VI foi preso na França, centenas de padres morreram sobre os cais de Rocherfort onde foram deportados na Guiania. A cerimônia da primeira comunhão deve então ser feita escondido, em uma fazendo de Ecully. Diante das janelas, colocaram charretes de feno, e durante a cerimônia, homens trabalhavam a descarregando.

Como poderiam suspeitar que atrás havia uma assembleia cristã como no tempo das catacumbas?

 

 

 

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As crianças chegam, uma após a outra, como de hábito todos os dias, e são conduzidas para um grande quarto onde as mães colocavam as fitas ou as velas que elas trouxeram, cuidadosamente escondidas sob suas capas. As velas são bem tampadas para que a luz delas não seja percebida de fora.

João Maria faz sua primeira comunhão com muita fé. Mais tarde ele dirá: "Oh meu Deus, que alegria para um cristão que, se levantando da mesa santa, se vai com todo o Céu em seu coração.

 

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A cerimônia termina, a mamãe pega a fita e João Maria, segurando bem forte o seu terço de comunhão que ele mostrará cinquenta anos mais tarde para as crianças de Ars, volta para Dardilly com seus pais. Terminados os anos de sua infância, terminados os anos de escola. Infelizmente, ele deverá se consagrar inteiramente aos trabalhos nos campos e tarefas da fazenda. Mas ele não é forte e de bom porte, é bem pequeno para sua idade...

 

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João Maria se coloca dedicado ao trabalho até o momento em que a perseguição termina para o estado e ocorre a subida de Bonaparte ao poder. Os trabalhos são variados: arar a terra, cavar, lavrar a vinha, catar nozes ou maçãs, limpar os animais, fazer feno, a colheita, esmagar as uvas... trabalhos penosos para um menino de 13 anos; mas João Maria está cheio de coragem, e, quando ele não pode, ele lança um olhar para Ecully onde ele sabe que Jesus está lá, todos dias presente no tabernáculo.

 

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– Como é bom oferecer seus sofrimentos à Deus – diria ele frequentemente mais tarde aos seus paroquianos.

E João Maria trabalha com ardor.

Um dia, ele parte para a vinha com seu irmão mais velho. Mas é preciso correr, se apressar, mesmo assim nada pode ser feito, o irmão é mais rápido. Ele chega à noite cansado, desgastado por ter tentando acompanhar o seu irmão.

- Eita! O que diriam as pessoas se João Maria que é mais novo estivesse fazendo tanto quanto eu que sou mais velho? – diz  o irmão.

 

 

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Tendo levado no dia seguinte sua estátua de Maria de Nazaré, ele volta a trabalhar com Francisco. Ele toma seu lugar na vinha, beija a estátua e a lança o mais longe possível diante dele mesmo. Depois ele começa a cavar com ardor até encontrar a estátua. Ele repete esse mesmo ato e assim faz o dia todo, tão bem que à noite ele entra todo feliz na fazenda.

- Hoje eu pude seguir Francisco e não fiquei cansado. – ele disse.

Ele continua a trabalhar assim, em silêncio, louvando à Deus através de todas suas criaturas.

 

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Nesse tempo, a Concordata foi assinada entre Bonaparte e o Papa. A Igreja volta enfim à paz depois de dez anos de turbulências. O padre Rey, antigo cura de Dardilly, volta do exílio e retoma o seu lugar na cidade. Que alegria para João Maria poder orar nas igrejas de sua paróquia! Bem frequentemente ele passa por lá, seja de manhã antes de ir aos campos, seja perto do meio dia quando o relógio chama as pessoas para a prece ou uma benção.

 

 

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João Maria não tendo mais o catecismo depois de sua primeira comunhão, vibra por conhecer mais o Cristo e Seus ensinamentos. Assim, no sótão onde ele dormia, ele instala uma prateleira onde ele coloca livros, entre eles o Evangelho e Imitação de Cristo. À noite, depois de suas exaustivas jornadas de trabalho, ele toma um dos livros e se coloca a ler e a orar, iluminado fracamente por uma vela de resina.