A Boa Pastora

Assim Bernadete crescia levando uma vida simples de camponesa. Várias vezes ao ano ela ia a Bartrès rever a Senhora Aravant, que a amava como uma filha. Em torno de 1857, a boa fazendeira, vendo Bernadete tão pequena e frágil, obteve autorização dos pais para levá-la de novo. E assim ela voltou a Bartrès.

Confiaram a ela o cuidado dos carneiros. Ela passava seus dias sozinha atenta ao rebanho na colina, brincando com seu cachorro, Pigou, e fazendo buquê de flores que ela depositava em altares feitos de pedras reunidas em montinhos. Certo dia, um cordeirinho derrubou com uma cabeçada o frágil altar. Mas ela dizia, quando contava essa história: “eu o amava de coração”.

“Ele era tão pequenino e eu amo todos que são pequenos”, continuava ela. Por ser tão simples e pequena sob todos os pontos de vista, ela até se parecia com Maria de Nazaré. Bernadete não poderia deixar de ter semelhança com aquela que disse: “eis aqui a serva do Senhor”.

Ela era tão correta, nossa pequena pastora, que não conhecia a mentira, nem quando dita de brincadeira. Por isso, certa vez seu pai foi vê-la, e a encontrou triste. E ela lhe disse: Olhe meus carneiros, alguns têm as costas verdes. E ele responde rindo: é o pasto que eles comeram e que subiu para as costas, pode ser que eles morram. Claro que ele estava brincando com Bernadete e não pensou que ela fosse acreditar nisso.

Mas quando a viu se derramar em lágrimas, ele explicou logo que isso era uma marca que o comerciante fazia para diferenciar os que já estavam vendidos. Quando Bernadete contava esse episódio ela dizia: Como eu não sabia o que era mentir, eu acreditava em tudo que me diziam. Essa retidão e doçura eram as marcas de Bernadete.

Testemunhas contaram que um dia, enquanto ela estava nos campos com seu rebanho, veio uma forte tempestade. O senhor Aravant, que de sua casa a avistava na colina, lhe fez um sinal para que entrasse imediatamente. Ela reúne os animais e desce até um pequeno córrego próximo ao vilarejo, que podia ser atravessado por uma simples passarela. Mas o riacho começou a encher, cobriu a passagem e Bernadete ficou com receio de não poder passar.

Parada na borda com seu rebanho, ela foi vista fazendo um grande sinal da cruz. Depois de um tempo, o nível das águas abaixou, deixando-a passar facilmente com seu rebanho. Bernadete chegava aos 14 anos, e ansiava muito por fazer sua primeira Comunhão. A senhora Aravant havia prometido a sua mãe enviá-la ao catecismo em Bartrès, mas o seu trabalho não a deixava com quase nenhum tempo livre.

Entretanto, todas as noites, ao entardecer, a fazendeira se esforçava para ensiná-la. Tarefa difícil, porque mesmo a criança sendo inteligente, nunca tendo estudado, sua memória não conseguia decorar as fórmulas que eram ensinadas. Então a catequista se impacientava: Oh! Você nunca será nada além de tola e ignorante. “Saberei sempre amar ao bom Deus”, respondia Bernadete abraçando sua mãe de criação.

Esse amor profundo de Bernadete transparecia no seu rosto. Sua doçura e pureza de coração, e um algo mais que era inexplicável, a faziam amar a todos, apesar de a acharem ignorante e de criticarem suas fragilidades físicas. As vizinhas ficavam tão sensibilizadas com esse amor de Bernadette que frequentemente lhe davam frutas, além do pão. Também o sacerdote de Bartrès confessou que a atitude de Bernadete o deixava emocionado

Um dia ele vendo de sua janela a pastora passar com seus carneiros, disse a sua serva: “Olhe essa menina, quando Maria, mãe de Jesus, aparece a alguém, ela deve escolher crianças como essa”. Muitas vezes esse padre fez observações semelhantes, sem ter a mínima ideia que suas impressões iriam ser confirmadas pelos fatos.

E Bernadete tinha fome do Evangelho. Vendo que em Bartrès nada avançava no Catecismo, e que o padre da cidade saiu e não foi substituído, ela mandou dizer a seus pais que queria voltar para Lourdes para fazer sua Primeira Comunhão. E nos primeiros dias do ano de 1858, ela se despediu de Bartrès e de seus carneiros para voltar a morar com sua família na triste masmorra.

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Parte 3 - Um encontro luminoso

Na verdade, lá eles não eram infelizes porque mesmo se faltava o pão, eles gostavam de estar todos juntos.

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