A infância de Bernardete

Uma rua tranquila de uma cidade calma em uma província francesa. Um grande portal de madeira simples e sempre aberto. Um pátio banhado de Sol, onde não se escuta nada além do canto dos passarinhos e o doce murmúrio do vento nas folhas. É o convento de Santo Guildarde em Nevers, o convento de Santa Bernadete de Soubirous.

Lá está ela, humilde na sua preciosa urna de vidro, oferecendo aos olhares emocionados dos peregrinos seu doce sorriso e toda sua atitude de grande recolhimento. Lá está ela, quer dizer, seu corpo está lá desde que Maria de Nazaré veio recolher sua alma na quarta feira de Páscoa de 16 de abril de 1879, para realizar sua promessa de fazê-la feliz “não nesse mundo, mas em outro”.

Pois a pequena Bernadete, que a Igreja declarou santa sob o nome de “Irmã de Caridade de Nevers, Santa Maria Bernarde”, é a menininha que teve a felicidade de ver 18 vezes a mãe de Jesus lhe aparecer (a partir de 18 de fevereiro de 1858, na gruta de Massabiele em Lourdes). Nevers é o final da sua luminosa história na Terra que começou em Lourdes.

Uma história tão verdadeira que ainda pode ser verificada até hoje. Em Lourdes, a fonte de milagres continua a correr para peregrinos vindos do mundo inteiro. Em Nevers, o milagre permanece, a humilde Bernadete continua com seu corpo intacto como se ela acabasse de ter falecido, passados 141 anos (ela morreu em 16 de abril de 1879).

Bernadete, uma santa, entretanto, ela foi como todos nós, um bebê igual a todos os outros, quando nasceu na sua bela cidadezinha dos Pirineus, no dia 7 de janeiro de 1844. Seu pai, Francisco Soubirous, era moleiro no moinho de Boly. Ele se casou com Luiza Castérot, em novembro de 1842. Bernadete foi a primeira filha do casal.

Com 2 dias de nascida, a menina foi levada à igreja paroquial para ser batizada. Sua tia Bernarde Castérot foi sua madrinha e escolheu seu nome: Maria-Bernarde. Mas em seguida a família passou a chamá-la de Bernadete (diminutivo de Bernarde). A mãe do bebê era jovem e tinha apenas 19 anos.

Os primeiros meses se passaram tranquilamente para felicidade de seus pais. Bernadete crescia com grandes olhos escuros e seu doce sorriso. E logo sua mãe esperava um segundo bebê. Foi nessa época que uma amiga da cidade de Bartrès, a alguns quilômetros de Lourdes, veio anunciar a morte de seu filhinho.

Sensibilizada com sua dor e cansada de tanto trabalho que tinha no moinho, a senhora Soubirous entrega Bernadete a sua boa amiga, Maria Aravant, sabendo que sua filhinha seria cuidada e alimentada com amor. Bernadete fica na fazenda de Bartrès durante quinze meses. E aos 2 anos de idade, seus pais a buscam de volta.

Outros filhos nasceram na família Soubirous. Os negócios não iam bem, havia muitos moinhos e pouca clientela. Apesar de muitos acharem que eles não sabiam organizar bem os trabalhos, na verdade os pais de Bernadete muitas vezes se sensibilizavam com as pessoas e deixavam que pagassem depois. Logo a dificuldade se instala na casa e eles chegam ao ponto de não poderem mais pagar o aluguel.

Como os Soubirous eram tão bondosos e cheios de caridade cristã, não negavam farinha aos que não podiam pagar. Por isso eles tiveram que deixar seu moinho e cada um ir trabalhar fora o dia todo, depois de terem instalado a família em uma casa modesta. Mas como nem todos os dias havia trabalho, eles de novo atrasaram o aluguel.

A família não parava de crescer – já tinham 8 filhos - aumentando ainda mais as despesas. Depois de se mudarem diversas vezes, para moradias cada vez mais modestas, os pobres pais, tiveram que entregar até móveis como pagamento de suas dívidas. Então passaram a viver na miséria e sem teto.

Um primo, por compaixão, aceitou acolhê-los numa antiga prisão de sua propriedade. E a numerosa família se viu em um cômodo escuro, com uma pequena janela gradeada, que dava para um pátio insalubre onde ficava uma compostagem de adubo. Esse lugar era chamado de masmorra (ou calabouço), pelo uso que teve quando era uma prisão.

Essa masmorra, onde Bernadete morava na ocasião das aparições, ainda existe em Lourdes, e fica-se emocionado ao visitar essa pobre habitação onde toda a família foi obrigada a viver. É ainda mais emocionante quando se imagina que era lá que morava aquela a quem Maria fez sua confidente, aparecendo para ela 18 vezes na gruta.

Ela não era uma criança extraordinária que se fizesse notar por sua beleza ou inteligência. Não, Bernadete era uma menininha simples, também não era feia com seus grandes olhos negros e rosto redondo. Ela era sempre doce, sorridente, cheia de amabilidade. De sua boca saía uma voz cheia de ternura.

Ela era pequena para sua idade e não tinha boa saúde. Desde a mais tenra idade, tinha crises de asma que a debilitavam muito e a tornavam frágil. Sua mãe fazia o possível para tratar dela, mas não era tarefa fácil quando o dinheiro estava sempre faltando. Às vezes as crises de falta de ar eram tão fortes que a faziam desmaiar.

Quando lhe conseguiam um pouco de pão branco (porque o pão de milho que era pesado lhe fazia mal) ou algum outro alimento mais requintado, seus irmãos menores, com infantilidade, reclamavam. Como irmã mais velha, Bernadete não se sentia melhor ou maior do que seus irmãos e dividia sua comida sem nunca se queixar.

Todas as manhãs seus pais saíam para procurar trabalho e ela ficava cuidando de seus irmãos menores, o que sempre a impedia de ir à escola. E assim aos 13 anos, ela ainda não sabia ler nem escrever. Mas ela sabia orar, porque seus pais eram bons cristãos e ensinavam seus filhos desde pequenos a orar e a serem bondosos.

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Parte 2 - A boa Pastora

Assim Bernadete crescia levando uma vida simples de camponesa. Várias vezes ao ano ela ia a Bartrès rever a Senhora Aravant, que a amava como uma filha.

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